segunda-feira, 19 de março de 2012

ASPECTOS HISTÓRICOS SOBRE A ORIGEM DO SENTIMENTO DE INFÂNCIA


Nos primeiros tempos em que a infância não era percebida, aproximadamente no período entre os séculos XII a XVII, a criança era vista como um adulto em miniatura, uma vez que a sua educação era transmitida pela família, principalmente pela mãe, que direcionava os cuidados necessários e os ensinamentos de que ela necessitava.
Philipe Ariès, em sua obra clássica “A história social da criança e da família”, (1981), retrata que o conceito de criança tem evoluído, sendo vista ora como bebelô, bichindo de estimação, ora como um adulto que não cresceu, passível de encargos e abusos como os da negligência, do trabalho precoce e também da exploração sexual.
Segundo ele (1981):
A descoberta da infância começou sem dúvida no século XIII, e sua evolução pode ser acompanhada na história da arte e na iconografia dos séculos XV e XVI. Mas os sinais de seu desenvolvimento particularmente numerosos e significativos a partir do fim do século XVI e durante o século XVII. (p. 65)
Em se tratando de cuidados, quando a criança não precisava mais do apoio constante da mãe ou da ama, ela  passava a conviver com os adultos, ingressando na idade adulta e fazendo parte de suas relações e rotina. A infância, naquela época, era vista como um estado de transição para a vida adulta.  O indivíduo só passava a existir quando começava a participar das atividades sociais como o adulto.
Ariès (1981) traz a dependência da criança em relação ao adulto. Como não era vista como um sujeito, mas como um ser que não havia crescido, não havia distinção entre as atividades, até mesmo jogos e brincadeiras da época. Ele diz que:
Até os princípios do século XVII, não existia separação entre as brincadeiras e os jogos reservados às crianças e aos adultos. [...]Alguns jogos de salão – os mais simples – ficaram restritos às crianças e ao povo, às “pessoas ignorantes e grosseiras”, enquanto aqueles que dependiam de um pouco mais do espírito, como o jogo das rimas, eram utilizados apenas pelos cavalheiros e damas da alta dignidade. (1981, p.115-6)
       O primeiro sentimento de infância que surgiu foi o da “paparicação”. Esse sentimento apareceu no núcleo familiar, na presença das crianças pequenas. As pessoas admitiam o prazer provocado e também o bem estar que sentiam em paparicá-las.  No decorrer dos anos, a criança, por sua ingenuidade e delicadeza, torna-se fonte de descontração e de entretenimento para os adultos.
O segundo sentimento de infância que surgiu foi a percepção da inocência e da fraqueza da criança.  Conforme Ariès (1981), “a família começou a se organizar, dirigindo a ela tamanha importância e saindo então do seu anonimato. Agora, seria inaceitável perdê-la ou substituí-la sem que isto causasse imensa dor, não podendo ela mais ser reproduzida muitas vezes, e que se tornou necessário limitar seu número para melhor cuidar dela” ( p.12).
       Desde que a escola fora instituída como um ambiente moderno, tornou-se, como diz Corazza (2000), ponto de referência de diferentes setores sociais, tomada como um espaço de enfrentamentos, geradora de discursos e tensões (p. 188). Para ela:
A escola seria um espaço contestado que, ao lado de outros, põe em jogo a governamentabilidade da população, especialmente a infantil, e seu disciplinamento em termos de conformação de um corpo dócil e utilitariamente funcional às diversas estratégias da dinâmica social. [...] A escola – com seus mecanismos e táticas de normalização, implantação de hábitos e rotinas, transmissão de conteúdos uniformes, horários, distribuição espacial, execuções disciplinares, operacionalização de formas determinadas de racionalidade e de subjetividades, criação de interesses, necessidades, afetos e desejos – produz a infância, por meio do discurso pedagógico que, no infantil e em seu desenvolvimento, encontra razões sociais, culturais, econômicas e políticas que justificam sua necessidade cultural, existência política e subsistência institucional. (2000, p. 189)
Nesse modelo de escola, a criança era disciplinada para atender aos desejos e interesses da sociedade e satisfazer a família, não havendo a oportunidade de que ela pudesse explorar o conhecimento adquirido, contextualizar com o outro suas aprendizagens. Não existia a preocupação de formar um sujeito crítico e reflexivo, mas que agisse conforme sua cultura, de acordo com as normas impostas pela sociedade.
Comênio (1592-1670) filósofo tcheco que procurou combater o sistema medieval, defendeu o ensino “tudo para todos”, sendo o primeiro teórico a respeitar a inteligência e os sentimentos da criança. Aconteceu aí o despertar de uma nova concepção de infância.
Como diz Jõao Luiz Gasparim, professor do Departamento de Teoria e Prática da Educação da Universidade Estadual de Maringá, Comênio trata a infância com muita delicadeza, num tempo em que a escola existia sob o regime da palmatória. Naquela época, a educação era praticada e aplicada como um castigo, não oferecendo subsídios para que o educando estabelecesse relação com a sociedade. Com essa situação, o teórico demonstrou sua preocupação questionando do por quê não pode se aprender brincando.
No pensamento de Comênio, “age idiotamente aquele que pretende ensinar aos alunos não quanto eles podem aprender, mas quanto ele próprio deseja”.  Para ele, deve-se começar a formação muito cedo, desde a infância, poiis não se deve passar a vida a aprender, mas a fazer.
Outro pensador preocupado com o desenvolvimento físico e cognitivo da criança era o filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), revolucionário para o seu tempo, diz que a escla não deve se preocupar com a formação da criança para sua idade adulta, , mas envolver-se também na intenção de propiciar felicidade à criança enquanto ela ainda é pequena.
Para Rousseau, citado por Maria Constança Peres Pissarra, professora de Filosofia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, a criança devia ser educada sobretudo em liberdade e viver cada fase da infância em sua plenitude. Para ele, o ser humano é praticamente só sentidos, emoções e corpo físico, enquanto a razão ainda está em processo de formação.
Em uma de suas frases , o filósofo diz que a instrução das crianças é um ofício em que é necessário saber perder tempo, a fim de ganhá-lo, devendo deixá-la correr, se divertir, cair até mesmo cem vezes por dia, tanto melhor, sendo que assim aprenderá mais cedo a se levantar.
Golveia, citado no artigo da Pós-Graduanda Elenir Mousquer (2001) diz que:
É fundamental que no âmbito da educação conceber criança como pequeno adulto ou subestimar sua capacidade de construir deixa de ser regra. Toda e qualquer proposta deve partir da valorização da criança, partir da sua voz, da sua visão de mundo e de suas necessidades. (p. 81)
Esse pensamento diz da criança poder ter a oportunidade de explorar o seu meio, o seu espaço, no seu tempo, construindo os seus conceitos, as suas hipóteses acerca do que está vivenciando, sem que a aprendizagem seja algo imposto, em um determinado espaço, num determinado tempo, cada criança possui a sua singularidade.
O que não acontece na maioria das escolas, já que o conhecimento, na maioria das vezes é trazido pronto para o aluno, não permitindo que ele explore, investigue, entre em contato direto com as aprendizagens, estando num processo de memorização e adestramento.
       Em relação a Educação Infantil, aos poucos a criança foi ocupando o seu espaço, uma vez que sua presença nas instituições escolares era apenas de cunho assistencialista, já que as mulheres invadiram o mercado de trabalho devido à necessidade. Nesses espaços prevalecia apenas o cuidado e a higienização, não sendo propiciado situações que pudessem desenvolver a criança como um todo.
A partir do momento em que foi criada uma consciência sobre a importância da primeira infância, foram desenvolvidas várias políticas públicas e programas educacionais que pudessem promover e ampliar as condições necessárias para o desenvolvimento das crianças, que começaram a conquistar o seu espaço e direitos na sociedade.
A integração da Educação Infantil no âmbito da Educação Básica dando direito às crianças de 0 a 6 anos de idade, sendo dever do estado e da sociedade civil, vem da luta desenvolvida especialmente por educadores que, ao longo dos anos, apoia alguns segmentos organizados na definição das políticas públicas e na elaboração de leis que promovem direitos a elas.
Uma política nacional para a infância diz do seu reconhecimento enquanto sujeito de direitos. Quando amparada por Lei, a criança deve receber, nas instituições de ensino, não apenas o cuidar, a atenção com sua higiene, mas o educar, a preocupação com o seu conhecimento, com o desenvolvimento das suas habilidades.
A partir da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional 9394/96, que define a Educação Infantil como a primeira etapa da Educação Básica, a criança de 0 a 6 anos passa a receber prioridade nas suas necessidades educacionais como o cuidar e o educar, sendo que os órgãos responsáveis pelo seu oferecimento devem se preocupar em propiciar um espaço e tempo condizente com o desenvolvimento da criança, respeitando sua idade, seu contexto e sua singularidade.
A partir dessa lei, a educação infantil começa a ser vista como parte integrante do sistema educacional brasileiro. Percebe-se a educação infantil como um espaço de aprendizagens, onde as crianças fazem relações, sendo que o educador não está no seu papel de protetor, mas de provocador, instigando as crianças desde a mais tenra idade para que levantem suas hipóteses acerca do mundo que a cerca, preparando-a para sua vida escolar.
Na retrospectiva histórica para compreender o desenvolvimento infantil, percebe-se os vários momentos pelo qual passou o sentimento de infância, e, ao transcrever esse período de evolução do olhar sobre a criança para uma abordagem sócio-histórica, diz-se que a criança, desde o seu nascimento, pertence a um contexto em que aos poucos vai se adequando às exigências do meio cultural onde está inserida.
       No decorrer da trajetória histórica referente ao desenvolvimento infantil, a criança  conquistou sua valorização e seu espaço a partir do reconhecimento das suas potencialidades e de sua importância tanto na vida humana quanto social e histórica, adquirindo direitos amparados por lei, sendo dever da família e sociedade zelá-los pelos mesmos.
       No entanto, para fazer valer esses direitos por ela adquiridos, as instituições de ensino devem oferecer na organização dos seus espaços e tempos, oportunidades para que se desenvolvam as aprendizagens, instrumentos inovadores e facilitadores em que a criança crie, produza e construa a sua subjetividade.



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