Nos primeiros tempos em que a infância não era percebida,
aproximadamente no período entre os séculos XII a XVII, a criança era vista
como um adulto em miniatura, uma vez que a sua educação era transmitida pela
família, principalmente pela mãe, que direcionava os cuidados necessários e os
ensinamentos de que ela necessitava.
Philipe Ariès, em sua obra clássica “A história social da
criança e da família”, (1981), retrata que o conceito de criança tem evoluído,
sendo vista ora como bebelô, bichindo de estimação, ora como um adulto que não
cresceu, passível de encargos e abusos como os da negligência, do trabalho
precoce e também da exploração sexual.
Segundo ele (1981):
A
descoberta da infância começou sem dúvida no século XIII, e sua evolução pode
ser acompanhada na história da arte e na iconografia dos séculos XV e XVI. Mas
os sinais de seu desenvolvimento particularmente numerosos e significativos a
partir do fim do século XVI e durante o século XVII. (p. 65)
Em se tratando de cuidados, quando a criança não precisava mais
do apoio constante da mãe ou da ama, ela
passava a conviver com os adultos, ingressando na idade adulta e fazendo
parte de suas relações e rotina. A infância, naquela época, era vista como um
estado de transição para a vida adulta.
O indivíduo só passava a existir quando começava a participar das
atividades sociais como o adulto.
Ariès (1981) traz a dependência da criança em relação ao
adulto. Como não era vista como um sujeito, mas como um ser que não havia
crescido, não havia distinção entre as atividades, até mesmo jogos e
brincadeiras da época. Ele diz que:
Até os
princípios do século XVII, não existia separação entre as brincadeiras e os
jogos reservados às crianças e aos adultos. [...]Alguns jogos de salão – os
mais simples – ficaram restritos às crianças e ao povo, às “pessoas ignorantes
e grosseiras”, enquanto aqueles que dependiam de um pouco mais do espírito,
como o jogo das rimas, eram utilizados apenas pelos cavalheiros e damas da alta
dignidade. (1981, p.115-6)
O primeiro
sentimento de infância que surgiu foi o da “paparicação”. Esse sentimento
apareceu no núcleo familiar, na presença das crianças pequenas. As pessoas admitiam
o prazer provocado e também o bem estar que sentiam em paparicá-las. No decorrer dos anos, a criança, por sua
ingenuidade e delicadeza, torna-se fonte de descontração e de entretenimento
para os adultos.
O segundo sentimento de infância que surgiu foi a percepção
da inocência e da fraqueza da criança. Conforme
Ariès (1981), “a família começou a se organizar, dirigindo a ela tamanha
importância e saindo então do seu anonimato. Agora, seria inaceitável perdê-la
ou substituí-la sem que isto causasse imensa dor, não podendo ela mais ser
reproduzida muitas vezes, e que se tornou necessário limitar seu número para
melhor cuidar dela” ( p.12).
Desde que a
escola fora instituída como um ambiente moderno, tornou-se, como diz Corazza
(2000), ponto de referência de diferentes setores sociais, tomada como um
espaço de enfrentamentos, geradora de discursos e tensões (p. 188). Para ela:
A escola seria
um espaço contestado que, ao lado de outros, põe em jogo a governamentabilidade
da população, especialmente a infantil, e seu disciplinamento em termos de
conformação de um corpo dócil e utilitariamente funcional às diversas
estratégias da dinâmica social. [...] A escola – com seus mecanismos e táticas
de normalização, implantação de hábitos e rotinas, transmissão de conteúdos
uniformes, horários, distribuição espacial, execuções disciplinares,
operacionalização de formas determinadas de racionalidade e de subjetividades,
criação de interesses, necessidades, afetos e desejos – produz a infância, por
meio do discurso pedagógico que, no infantil e em seu desenvolvimento, encontra
razões sociais, culturais, econômicas e políticas que justificam sua
necessidade cultural, existência política e subsistência institucional. (2000,
p. 189)
Nesse modelo de escola, a criança era disciplinada para
atender aos desejos e interesses da sociedade e satisfazer a família, não
havendo a oportunidade de que ela pudesse explorar o conhecimento adquirido,
contextualizar com o outro suas aprendizagens. Não existia a preocupação de
formar um sujeito crítico e reflexivo, mas que agisse conforme sua cultura, de
acordo com as normas impostas pela sociedade.
Comênio (1592-1670) filósofo tcheco que procurou combater o sistema
medieval, defendeu o ensino “tudo para todos”, sendo o primeiro teórico a
respeitar a inteligência e os sentimentos da criança. Aconteceu aí o despertar
de uma nova concepção de infância.
Como diz Jõao Luiz Gasparim, professor do Departamento de
Teoria e Prática da Educação da Universidade Estadual de Maringá, Comênio trata
a infância com muita delicadeza, num tempo em que a escola existia sob o regime
da palmatória. Naquela época, a educação era praticada e aplicada como um
castigo, não oferecendo subsídios para que o educando estabelecesse relação com
a sociedade. Com essa situação, o teórico demonstrou sua preocupação
questionando do por quê não pode se aprender brincando.
No pensamento de Comênio, “age idiotamente aquele que
pretende ensinar aos alunos não quanto eles podem aprender, mas quanto ele
próprio deseja”. Para ele, deve-se
começar a formação muito cedo, desde a infância, poiis não se deve passar a
vida a aprender, mas a fazer.
Outro pensador preocupado com o desenvolvimento físico e
cognitivo da criança era o filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau (1712-1778),
revolucionário para o seu tempo, diz que a escla não deve se preocupar com a
formação da criança para sua idade adulta, , mas envolver-se também na intenção
de propiciar felicidade à criança enquanto ela ainda é pequena.
Para Rousseau, citado por Maria Constança Peres Pissarra,
professora de Filosofia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, a
criança devia ser educada sobretudo em liberdade e viver cada fase da infância
em sua plenitude. Para ele, o ser humano é praticamente só sentidos, emoções e
corpo físico, enquanto a razão ainda está em processo de formação.
Em uma de suas frases , o filósofo diz que a instrução das
crianças é um ofício em que é necessário saber perder tempo, a fim de ganhá-lo,
devendo deixá-la correr, se divertir, cair até mesmo cem vezes por dia, tanto
melhor, sendo que assim aprenderá mais cedo a se levantar.
Golveia, citado no artigo da Pós-Graduanda Elenir Mousquer
(2001) diz que:
É fundamental
que no âmbito da educação
conceber criança como pequeno adulto ou subestimar sua capacidade de construir
deixa de ser regra. Toda e qualquer proposta deve partir da valorização da
criança, partir da sua voz, da sua visão de mundo e de suas necessidades. (p.
81)
Esse pensamento diz da criança poder ter a oportunidade de
explorar o seu meio, o seu espaço, no seu tempo, construindo os seus conceitos,
as suas hipóteses acerca do que está vivenciando, sem que a aprendizagem seja
algo imposto, em um determinado espaço, num determinado tempo, cada criança
possui a sua singularidade.
O que não acontece na maioria das escolas, já que o
conhecimento, na maioria das vezes é trazido pronto para o aluno, não
permitindo que ele explore, investigue, entre em contato direto com as aprendizagens,
estando num processo de memorização e adestramento.
Em relação a
Educação Infantil, aos poucos a criança foi ocupando o seu espaço, uma vez que
sua presença nas instituições escolares era apenas de cunho assistencialista,
já que as mulheres invadiram o mercado de trabalho devido à necessidade. Nesses
espaços prevalecia apenas o cuidado e a higienização, não sendo propiciado
situações que pudessem desenvolver a criança como um todo.
A partir do momento em que foi criada uma consciência sobre a
importância da primeira infância, foram desenvolvidas várias políticas públicas
e programas educacionais que pudessem promover e ampliar as condições
necessárias para o desenvolvimento das crianças, que começaram a conquistar o
seu espaço e direitos na sociedade.
A integração da Educação Infantil no âmbito da Educação
Básica dando direito às crianças de 0 a 6 anos de idade, sendo dever do estado
e da sociedade civil, vem da luta desenvolvida especialmente por educadores
que, ao longo dos anos, apoia alguns segmentos organizados na definição das
políticas públicas e na elaboração de leis que promovem direitos a elas.
Uma política nacional para a infância diz do seu
reconhecimento enquanto sujeito de direitos. Quando amparada por Lei, a criança
deve receber, nas instituições de ensino, não apenas o cuidar, a atenção com
sua higiene, mas o educar, a preocupação com o seu conhecimento, com o
desenvolvimento das suas habilidades.
A partir da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional
9394/96, que define a Educação Infantil como a primeira etapa da Educação
Básica, a criança de 0 a 6 anos passa a receber prioridade nas suas
necessidades educacionais como o cuidar e o educar, sendo que os órgãos
responsáveis pelo seu oferecimento devem se preocupar em propiciar um espaço e
tempo condizente com o desenvolvimento da criança, respeitando sua idade, seu
contexto e sua singularidade.
A partir dessa lei, a educação infantil começa a ser vista
como parte integrante do sistema educacional brasileiro. Percebe-se a educação
infantil como um espaço de aprendizagens, onde as crianças fazem relações,
sendo que o educador não está no seu papel de protetor, mas de provocador,
instigando as crianças desde a mais tenra idade para que levantem suas
hipóteses acerca do mundo que a cerca, preparando-a para sua vida escolar.
Na retrospectiva histórica para compreender o desenvolvimento
infantil, percebe-se os vários momentos pelo qual passou o sentimento de
infância, e, ao transcrever esse período de evolução do olhar sobre a criança
para uma abordagem sócio-histórica, diz-se que a criança, desde o seu
nascimento, pertence a um contexto em que aos poucos vai se adequando às exigências
do meio cultural onde está inserida.
No decorrer da
trajetória histórica referente ao desenvolvimento infantil, a criança conquistou sua valorização e seu espaço a
partir do reconhecimento das suas potencialidades e de sua importância tanto na
vida humana quanto social e histórica, adquirindo direitos amparados por lei,
sendo dever da família e sociedade zelá-los pelos mesmos.
No entanto, para
fazer valer esses direitos por ela adquiridos, as instituições de ensino devem
oferecer na organização dos seus espaços e tempos, oportunidades para que se
desenvolvam as aprendizagens, instrumentos inovadores e facilitadores em que a
criança crie, produza e construa a sua subjetividade.
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